Aos 200 anos, escola mais antiga do Brasil guarda histórias de bilhetes secretos e ex-alunos ilustres como Clarice Lispector e Ariano Suassuna
29/11/2025
(Foto: Reprodução) Conheça o Ginásio Pernambucano, colégio mais antigo em funcionamento do Brasil
O prédio antigo na Rua da Aurora que abriga o Ginásio Pernambucano, no Centro do Recife, já viu o país mudar muitas vezes. Fundado em 1825, logo após a Confederação do Equador, o colégio completou 200 anos em 2025 e é a escola mais antiga em funcionamento no Brasil.
As paredes do edifício, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1984, já “ouviram” conversas de alunos que viriam a ser grandes personalidades da história nacional, a exemplo dos escritores Clarice Lispector, Ariano Suassuna e do presidente da República Epitácio Pessoa.
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Atualmente, o Ginásio Pernambucano ainda guarda as marcas dessa história em sua arquitetura preservada, no acervo literário com milhares de obras raras catalogadas, no museu de história natural que funciona na instituição e até mesmo nos objetos e mobiliário de época mantido e utilizado pelos alunos até os dias de hoje (veja vídeo mais acima).
Nesta reportagem, o g1 vai te guiar pela história da instituição e mostrar como o colégio atravessou séculos, preservou tradições e acumulou curiosidades que ajudam a entender não só a educação em Pernambuco, mas também parte da formação cultural do Brasil.
Um novo paradigma
Replica do Ginásio Pernambucano exposta no Museu de História Natural Jaques Brunet
Iris Costa/g1
O colégio começou com o nome Liceu Provincial de Pernambuco e funcionou, inicialmente, no Convento do Carmo, no Centro do Recife, passando por diversos prédios até ganhar sua sede definitiva, em 1859. À época, por conta da ruptura recente com o domínio colonial português, o Brasil precisava de novas alternativas para educar a elite do novo império.
Logo no início, o Ginásio despertou estranhamento. A ideia de educação escolarizada fora das casas ainda era novidade em 1825, e muitos pais se assustaram com a proposta. A coordenadora do Museu de História Natural Jaques Brunet, que funciona na instituição, Francisca Juscizete, explicou que o hábito era contratar professores para lecionar em ambiente doméstico.
Essa proposta de educação escolarizada é uma coisa muito nova em 1825, então os pais obviamente se assustaram com essa proposta, até porque nós íamos ter uma interação [entre alunos]. O costume da época era que os professores fossem contratados para lecionar dentro das casas, e os pais começaram a se preocupar com essa socialização, contou a coordenadora do museu.
Embora administrado pelo estado desde sua concepção, o Ginásio Pernambucano tinha o alto custo como uma das características. Havia cobrança de taxas para estudar no colégio, prática comum nos anos iniciais e que reforçava a postura elitizada da instituição. Apesar disso, bolsas de estudo eram concedidas, justificando o caráter público da escola.
Essa realidade atravessou décadas. A própria Francisca lembrou que, na década de 1970, sua mãe ainda pagava uma taxa para que ela estudasse, além de arcar com livros e uniformes, que eram caros.
“Até a minha época, quando eu fazia a terceira, quarta série, a gente pagava. Não tinha essa distribuição de livro didático que a gente tem hoje. [...] Os livros eram caríssimos, o uniforme era muito caro, tinha também um emblema, era tudo comprado. E era, realmente, para uma elite mesmo. Não era o que a gente tem hoje”, afirmou.
A exclusividade masculina também marcou parte da trajetória do colégio. A coordenadora da Biblioteca Professor Olívio Montenegro, Helena Borba, explicou que havia a crença de que meninas não precisavam frequentar tanto a escola quanto os meninos, e por isso o Ginásio funcionou por muito tempo apenas para o público masculino.
A mudança para a modalidade mista veio depois, acompanhando transformações sociais que ampliaram o acesso das mulheres à educação. Histórias do cotidiano estudantil também ajudam a contar esse passado.
O gestor do Ginásio Pernambucano, Antônio Rosa, relatou que um ex-aluno lembrou de uma cadeira antiga com um compartimento onde os estudantes deixavam bilhetes para colegas que chegavam no turno seguinte.
Ele, contando da época dele, disse que, pela manhã, estudavam os rapazes e, à tarde, moças. Às vezes, eles deixavam um bilhetinho de manhã para elas acessarem à tarde, marcando de se encontrarem na Rua da Aurora. Era o WhatsApp da época, brincou o gestor.
Ainda de acordo com Antônio Rosa, o colégio foi pioneiro em limitar castigos físicos, muito comuns na educação brasileira do século XIX, e aboliu o uso da vara de marmelo, algo incomum no período.
Alunos ilustres
Ao longo de dois séculos, o Ginásio Pernambucano foi palco da formação de nomes que ajudaram a escrever parte da história política e cultural do Brasil. Pelas salas e corredores da escola, passaram seis governadores do estado, escritores e até um presidente da República.
Conheça alguns dos nomes que estudaram no Ginásio Pernambucano:
Clarice Lispector
Retrato de Clarice Lispector, de autoria desconhecida, sem data
Acervo Clarice Lispector/IMS
A escritora, considerada uma das maiores da literatura brasileira, estudou no Ginásio Pernambucano durante a juventude. Nascida na Ucrânia e criada no Recife, Clarice viveu na cidade entre 1925 e 1937. Foi nesse período que começou a escrever e a demonstrar o talento que, mais tarde, se revelaria em obras como A Hora da Estrela e Perto do Coração Selvagem.
Ariano Suassuna
Ariano Suassuna em imagem de arquivo
Reprodução/TV Globo
Autor de O Auto da Compadecida e fundador do Movimento Armorial, Ariano Suassuna também teve o Ginásio Pernambucano como parte de sua trajetória. Já adulto, voltou à escola como professor convidado para ministrar aulas extracurriculares de teatro. Em entrevista à TV Globo em 2002, ele contou que foi para um grupo de alunos do colégio que escreveu a obra mais famosa de sua carreira.
O professor Amaro Quintas foi o diretor desse colégio e me convidou para dar aulas de teatro aqui, extracurriculares, que eram dadas a voluntários. Foi para esse grupo de meus alunos daqui que eu escrevi 'O Auto da Compadecida, contou o escritor.
Assis Chateaubriand
Assis Chateaubriand, um cosmopolita e internacionalizado de Umbuzeiro, na Paraíba
Acervo/TV Cabo Branco
Jornalista, empresário e político, Assis Chateaubriand — fundador dos Diários Associados e da TV Tupi — também passou pelos bancos do Ginásio Pernambucano. Chateaubriand foi responsável pela criação do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e marcou época como um dos maiores nomes da comunicação no país, entre as décadas de 1930 e 1960.
Epitácio Pessoa
Epitácio Pessoa em foto de 1894, quando era professor da Faculdade de Direito do Recife
Arquivo Epitácio Pessoa/IHGB
Natural da Paraíba, Epitácio Pessoa estudou no Ginásio Pernambucano antes de seguir carreira no direito e na política. Foi presidente da República entre 1919 e 1922, período em que buscou modernizar o país e enfrentar os efeitos da Primeira Guerra Mundial.
Agamenon Magalhães
Agamenon Magalhães foi governador de Pernambuco entre 1937 e 1945
Reprodução/Internet
Um dos ex-governadores de Pernambuco, Agamenon Magalhães teve laços ainda mais fortes com o Ginásio Pernambucano: além de estudar nessa escola, também foi diretor dela. Governou o estado entre 1937 e 1945 e teve papel importante na modernização da administração pública e na defesa da educação como instrumento de transformação social.
Além de Agamenon, outros cinco governadores também estudaram no Ginásio Pernambucano:
Sérgio Loreto;
Etelvino Lins;
Paulo Guerra;
Eraldo Gueiros;
Cid Sampaio.
Acervo histórico e homenagem a Dom Pedro II
Pendão entregue por Dom Pedro II, em visita ao Recife, em 1859
Iris Costa/g1
Mesmo com as várias mudanças ao longo do tempo, uma característica permaneceu: a ligação com a história do país. O Ginásio Pernambucano abriga documentos, quadros, objetos de época e peças arqueológicas que ajudam a reconstruir a memória da educação brasileira.
Entre os tesouros guardados no museu escolar, está o pendão entregue por Dom Pedro II em 1859, durante sua visita ao Recife. O objeto foi confeccionado em 1855, data da pedra fundamental do edifício da Rua da Aurora, e se tornou um dos símbolos mais valiosos da escola.
De acordo com o gestor do colégio, Antônio Rosa, essa conexão com o imperador não é apenas simbólica. A pedra fundamental do prédio atual foi lançada em maio de 1855, em um projeto do engenheiro pernambucano José Mamede de Ferreira, que havia estudado em Paris.
À época, Pernambuco saía da Revolução Praieira, em uma vitória do Império, e o governador da província buscava se aproximar da Coroa. Por isso, segundo Antônio Rosa, o engenheiro dedicou duas grandes obras ao imperador: a sede atual do Ginásio Pernambucano e o Hospital Pedro II, onde hoje funciona o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no bairro dos Coelhos, no Centro do Recife.
O próprio edifício, inaugurado em 1859, carrega essa homenagem em sua arquitetura: a edificação foi construída em formato de dois is — o número dois, em algarismo romano. É possível verificar o formato quando o colégio é visto de cima.
Pernambuco saía da Revolução Praieira, que foi uma vitória do Império, e era natural que o governador da província de Pernambuco precisasse se aproximar da Coroa. O recém-nomeado engenheiro de obras da prefeitura, José Mamede, construiu alguns projetos grandes em homenagem ao imperador D. Pedro II, contextualizou o diretor da escola.
Vista aérea do Ginásio Pernambucano, no Recife
Ezequiel Quirino/TV Globo
A Biblioteca Professor Olívio Montenegro também é parte fundamental dessa herança. De acordo com a coordenadora Helena Borba, o espaço guarda um acervo extenso. “A biblioteca do Ginásio Pernambucano, apesar de ser uma biblioteca escolar, é diferenciada. Ela tem um acervo desde o século XVI se estendendo até os nossos dias”, contou.
Mais do que um espaço de estudo para os alunos do ensino médio, o local funciona como ponto de pesquisa para professores universitários e estudiosos do Brasil e do exterior. “A gente recebe pessoas para fazer consultas a esse acervo e dar continuidade às suas pesquisas”, disse a coordenadora de biblioteca.
Helena Borba explicou, ainda, que o mobiliário da biblioteca é todo de época e que o acervo literário ultrapassa dez mil exemplares, dos quais entre cinco e sete mil são obras raras. Catalogadas, há cerca de quatro mil.
Museu escolar e coleção científica rara
Francisca Juscizete fala sobre acervo do Museu de História Natural Jaques Brunet
O Ginásio Pernambucano também guarda um dos museus escolares mais antigos do país: o Museu de História Natural Jaques Brunet. A origem do espaço não tem uma data oficial, mas, segundo a coordenadora Francisca Juscizete, já havia a intenção de criar um museu quando o projeto do edifício foi desenhado em 1855 (veja vídeo acima).
De acordo com a coordenadora, as escolas europeias dos séculos XVIII e XIX eram referências para instituições do mesmo porte, e é por isso que a existência de um museu e de uma grande biblioteca já fazia parte da concepção do prédio.
Registros mostram que, ainda em 1857, o jornal A Carteira anunciava que o museu do Ginásio estava aberto à visitação. Esse movimento coincidiu com a chegada do professor francês Louis Jacques Brunet, em 1852, que passou a realizar pesquisas científicas e foi contratado para organizar as coleções da escola.
“Como Brunet também tinha sido contratado para organizar as coleções, ele ficou mais como organizador. E por isso, segundo Olívio Montenegro, classificado como professor pesquisador, Brunet ganhava menos, recebia menos. Ele é o primeiro organizador [do acervo]”, comentou Francisca Juscizete.
Ainda segundo Francisca, Brunet realizou duas grandes expedições em busca de itens para compor o acervo: uma para o interior de Pernambuco e outra para o Norte do país. Desses percursos, vieram peças que ainda impressionam pelo tamanho e pela conservação, como jacarés de quase quatro metros e um pirarucu.
Ela também explicou que muitos desses animais resistiram ao tempo por causa de uma técnica hoje reconhecida como tóxica. “Era utilizado sabonete arsenical, que é altamente cancerígeno”, afirmou. O produto, aplicado, na época, sem conhecimento de seus riscos, só foi comprovado como nocivo décadas depois.
Hoje, o Museu Jaques Brunet funciona como um complemento vivo da sala de aula e mantém parte fundamental da memória científica do estado — um acervo que reúne história natural, práticas pedagógicas do século XIX e a própria trajetória do Ginásio Pernambucano.
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